Tradução - Logística, Contralogística e o Prospecto Comunista (Jasper Bernes)

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fotografia de um grupo de indígenas durante a ocupação da Cargill, portando cartazes e com um saco de soja aberto no chão

Fotografia de manifestantes indígenas durante a ocupação da Cargill. Fonte: site InfoAmazonia

Nota introdutória

por Grupo Comunista Antípoda

Desde o dia 22 de janeiro, 14 povos indígenas do baixo Tapajós ocupam o terminal da Cargill -  gigante transnacional exportadora de soja e milho - no porto de Santarém no Pará, contra a transformação do rio Tapajós de um “corpo coletivo e vivo em um corredor morto de exportação” [1]; e para o dia 06 de fevereiro, uma greve internacional foi chamada, atingindo portos em diversos países da região do Mediterrâneo e tendo como uma de suas palavras de ordem “os portuários não trabalham para a guerra”. Ambas são ações contra o genocídio. 

Um texto de Allan de Campos no Tocaia informa sobre o impacto da presença da Cargill em Santarém e Itaituba, ambas cidades no Pará, acusando a gigantesca empresa americana de fazer avanços sobre territórios indígenas e associando-a a “um aumento do desmatamento e da violência contra mulheres, a diminuição de peixes, a contaminação das águas por combustíveis de navios, a conflitos fundiários ligados à expansão da soja e a uma piora na qualidade dos serviços públicos locais.” [2] Já na nascente do Tapajós, o estado do Mato Grosso, encontra-se o centro do agronegócio brasileiro, a sede de um oligopólio que une gigantes dos EUA e da China, integrando verticalmente fazendeiros brasileiros e financiado massivamente pelo Governo Federal; fazendeiros estes que, depois de pulverizar áreas gigantescas com agrotóxicos, afetando comunidades rurais e indígenas com alergias, doenças hepáticas, malformação fetal e mortalidade infantil, “costumam mudar-se temporariamente para São Paulo, Brasília ou Rio de Janeiro quando estão planejando ter filhos.” [3] Essa distribuição da morte por meio da água, terra e ar, desapropriação de territórios e violência reprodutiva, assim como o cinismo nojento implicado no comportamento desses burgueses, não podem deixar de nos remeter ao genocídio promovido pelos porcos sionistas na Palestina, ao qual os portuários do Mediterrâneo reagem, dando continuidade a um movimento internacionalista que afirmou no passado: “guerra contra a guerra, não vamos ceder um centímetro…” [4]. 

Foram tais eventos que acompanharam nosso processo de tradução do texto a seguir, que analisa as transformações na estrutura global do capitalismo contemporâneo, o papel da assim chamada revolução logística nesse processo e suas implicações para o horizonte revolucionário possível - tudo isso enquanto busca dar um lugar à teoria revolucionária, usando-a para analisar a ocupação do porto de Oakland em 2011. 

Como os próprios termos da discussão parecem pedir - afinal, estamos falando em transformações na produção, circulação e na luta de classes -, é importante para uma introdução deste texto traçar os contornos de uma periodização do capitalismo. Nesse sentido, o período tratado aqui é chamado de “subsunção real do trabalho ao capital”, nome dado ao processo em que o capital supera a simples posse jurídica do trabalho, passando a ditar o processo produtivo em seus aspectos técnicos e gerenciais. É sob esse processo que muitas demandas do proletariado podem ser aceitas sem que isso implique em uma vitória do mesmo, em outras palavras, é sob ele que as vitórias trabalhistas imediatas são transformadas em derrota e integração do proletariado à sociedade democrática capitalista; é sob ele também que os trabalhadores passam a ter cada vez menos agência sobre suas próprias atividades, menos inspirações sobre o que seu trabalho deveria ser e com isso menos vontade de tomá-lo para si. Mais especificamente, a partir dos anos 70, fala-se em uma segunda fase da subsunção real, começada pela reestruturação produtiva de 68-73 e aprofundando muitas das características que citamos, enquanto subverte outras. Dentre outras coisas, compõem o processo da segunda fase da subsunção real: a nova filosofia de produção just in time - que submete as atividades na esfera da produção àquelas da circulação -, e o advento da revolução logística - processo que permitiu uma “vascularização” em escala planetária do capitalismo. 

Dessa forma, a submissão da produção à logística eleva a esfera da circulação enquanto alvo de ações revolucionárias (sua importância para o capital a transforma em uma importante refém das ações do proletariado) ao mesmo tempo que mitiga os impactos de ações revolucionárias dirigidas exclusivamente à esfera da produção: uma empresa que compra produtos fabricados no Brasil pode passar a comprar de outro país no momento em que sua primeira fornecedora entra em greve, por exemplo. Estes fatores implicam em algo que foi percebido pelo Occupy Oakland em 2011, pelos povos indígenas do baixo Tapajós em janeiro deste ano e por aqueles proletários que se recusam a fornecer armas e munições para assassinos ao redor do mundo: grandes bloqueios na esfera da circulação de mercadorias são ações de grande impacto e podem ser realizados não só pelos trabalhadores de locais de trabalho específicos, mas também pelas massas mais ou menos amorfas, informalizadas e excedentes que caracterizam o atual ciclo de lutas, ameaçadas por crescentes de empobrecimento, deslocamento e brutalidade. Isso, é claro, na medida em que forem capazes de se coordenarem de forma precisa, adquirindo e elaborando coletivamente, com organização e inquérito, um conhecimento profundo dos fluxos logísticos do capital.

[1] -“Protesto indígena mantém multinacional do agronegócio ocupada há uma semana no PA”, por g1 Pará - Belém. Disponível aqui.

[2] - “Cosmopolítica como materialismo radicalmente vivo: o que a luta contra a Cargill nos ensina?”, por Allan de Campos. Disponível aqui.

[3] - ibid.

[4] - “International Solidarity at the Port of Genova: A Worker’s Inquiry”, por Gemma Timpano. Publicado em Notes From Below, disponível aqui.


imagem do porto do jogo eletrônico Disco Elysium, com efeitos aplicados

Logística, Contralogística e o Prospecto Comunista

por Jasper Bernes

Para que serve a teoria? Qual o seu papel na luta contra o capital e o estado? Para grande parte da esquerda, a esquerda marxista em particular, a resposta é óbvia: a teoria nos diz o que fazer, o que deve ser feito, na fórmula estranhamente passiva que é usada frequentemente por aqui*. A teoria é a pedagoga da prática. Portanto, a conexão essencial entre o Camarada Lênin e seu suposto inimigo, o Renegado Kautsky, os maiores pensadores das Terceira e Segunda Internacionais: apesar de seus desacordos registrados, ambos acreditavam que sem um conhecimento especial e científico fornecido por intelectuais e dedicado para revolucionários, a classe trabalhadora estaria fadada a uma consciência degradada, incapaz de fazer uma revolução ou, ao menos, de fazer uma bem-sucedida. A tarefa da teoria, portanto, é de armar a consciência proletária, de direcioná-la para a ação correta. Essa visão didática da teoria se estende por toda a gama de trabalhos intelectuais marxistas no século 20, desde os brutos - em comparação - programatistas bolcheviques de Lênin e Trotsky até as variações sofisticadas oferecidas por Antônio Gramsci e Louis Althusser.

Existem outras perspectivas da teoria não-didática, no entanto. Podemos ver, por exemplo, a própria reflexão bastante inicial de Marx sobre tais assuntos. Não há necessidade de fingir ser professor da classe trabalhadora, como diz Marx para seu amigo Arnold Ruge: “Não dizemos a ele: “Deixa de lado essas tuas batalhas, pois é tudo bobagem; nós é que proferiremos o verdadeiro mote para a luta”. Nós apenas lhe mostramos o porquê de ele estar lutando, e a consciência é algo de que ele terá de apropriar-se, mesmo que não queira.” [1] A volta final nessa formulação é crucial, já que implica que o conhecimento que a teoria provê já abunda no mundo; a teoria apenas reflete, sintetiza e talvez acelera o “autoentendimento… da época sobre suas lutas e desejos”. A teoria é um momento na auto-educação do proletariado, cujo currículo envolve tanto panfletos inflamatórios e oratória de bar quanto barricadas e lutas de rua. 

A respeito disso, a teoria é mais um mapa do que rumos definidos: uma pesquisa do terreno em que nos encontramos, uma forma de ter de antemão orientações para um plano de ação arriscado. Estou pensando aqui sobre o ensaio de Fredric Jameson sobre “A lógica cultural do capitalismo tardio”, e seu chamado por “mapas cognitivos” que podem nos orientar nos novos espaços do mundo pós industrial. Apesar de Jameson certamente contar como um expoente da visão pedagógica da teoria - clamando por mapas cognitivos a partir de uma defesa do didatismo na arte - parte do apelo deste trabalho é a maneira como seu chamado emerge de uma desorientação vividamente narrada, a partir de uma fenomenologia dos atordoados e perdidos. Descrevendo os vazios emaranhados do Hotel Bonaventure, Jameson situa o leitor dentro de uma alegoria espacial para estruturas abstratas do capitalismo tardio e a “incapacidade de nossas mentes… de mapear a grande e global rede de comunicação multinacional descentralizada em que nos encontramos presos como sujeitos individuais”. [2] A teoria é um mapa produzido pelos próprios perdidos, nos oferecendo a difícil visão de dentro em vez da clareza da visão Olimpiana de cima.

Abatida na sombra de sua contraparte dominante, a teoria antididática frequentemente foi uma inversão amarga das suposições intelectualistas da visão leninista ou gramsciana. Enquanto a visão didática nos conta que a revolução falha por falta de teoria, ou por falta da teoria correta - falha porque a consciência correta não foi cultivada - a ultraesquerda comunista que herda a visão antididática oferece em vez disso uma teoria da traição intelectual, uma teoria da teoria militante como a corrupção da inteligência orgânica da classe trabalhadora. [3] O papel dos teóricos, então, é de prevenir essas intervenções corruptas de intelectuais, para permitir a auto-organização espontânea da classe trabalhadora. Como consequência, a ultraesquerda histórica, solidificando-se após a falha da onda revolucionária do começo do século 20 e a vitória de um marxismo contra-revolucionário, adota uma orientação reflexiva e contemplativa (se não fatalista) do destrinchar das lutas, oferecendo diagnósticos no máximo mas nunca uma reflexão estratégica, para que não cometa o pecado mortal da “intervenção”, brincando de pedagogo com as massas. O resultado é uma consciência perversamente triste que ao mesmo tempo tem mais juízo e sente que tal juízo é no melhor dos casos inútil e no pior, nocivo. Essa auto-consciência culpada infesta até as importantes teorias - de Gilles Dauvé e Théorie Communiste, por exemplo - que surgem depois de 1968 enquanto críticas da ultra-esquerda histórica.

Mas se realmente acreditamos que a teoria emerge como parte do auto-esclarecimento das lutas, então não há motivo para temer a intervenção ou o pensamento estratégico. Qualquer perspectiva que militantes e intelectuais possam trazer para a luta ou já está representada nela ou, caso contrário, pode ser confrontada enquanto um dos muitos obstáculos e impasses que os antagonistas encontram em sua auto-educação. Pensamento estratégico não é externo às lutas, mas é originário delas, e todo conjunto de vitórias ou derrotas abre-se em novos prospectos estratégicos** - futuros possíveis - que precisam ser examinados e cujos efeitos no presente podem ser levados em conta. Ao descrever esses prospectos, a teoria inevitavelmente toma lados em meio a elas. Isso não é dar ordens às lutas, mas ser ordenada por elas.

TEORIA VINDA DO CHÃO

O ensaio a seguir é um experimento na elaboração teórica. Ele tenta tornar explícita a conexão entre a teoria conforme se desdobra nas páginas dos periódicos comunistas e a teoria conforme se desdobra no conduzir das lutas, demonstrando como reflexões sobre a reestruturação do capitalismo emergem enquanto consequência de momentos particulares da luta. Partindo desses horizontes teóricos, prospectos estratégicos específicos também emergem, e na medida em que são discutidos no chão e afetam o que acontece ali, só podemos os evitar com grande esforço.

Podemos (e talvez devêssemos) sempre perguntar para as teorias que encontramos, Onde estamos? Em resposta a qual experiência prática essa teoria emergiu? No que se segue nós estamos, na maior parte, no porto de Oakland, Califórnia, sob as sombras de guindastes pórticos ciclópicos e navios containers, andando ansiosamente por aí com as outras 20 mil pessoas que entraram no porto para bloqueá-lo, como parte da assim chamada “Greve Geral” convocada pelo Occupy Oakland em 2 de novembro de 2011. Todo participante do bloqueio naquele dia com certeza tinha algum senso intuitivo da centralidade do porto para a economia do norte da Califórnia, e é com essa orientação intuitiva que a teoria começa. Se perguntados, diriam que uma fração considerável do que eles consomem veio do exterior, foi posto em navios e passou por portos como o de Oakland a caminho de seu destino final. Enquanto uma interface entre produção e consumo, entre os EUA e seus parceiros de troca além-mar, entre centenas de milhares de trabalhadores e as várias formas de capital circulante de que participam, o maquinário silenciado do porto se tornou rapidamente um emblema da totalidade complexa da produção capitalista que ele parecia tanto eclipsar quanto  revelar.

Para nossos bloqueadores, então, todo tipo de perguntas derivou diretamente de seu encontro com o espaço do porto e seu maquinário. Como podemos produzir um mapa das várias empresas - os fluxos de capital e trabalho - direta ou indiretamente afetados por um bloqueio do porto, por um bloqueio de terminais específicos? Quem fica a um passo de distância? A dois ou três? Além disso, surgiram questões sobre a relação entre a tática do bloqueio e as queixas daqueles que fizeram parte dele. Apesar de organizados em colaboração com a seção local do Sindicato Internacional de Estivadores e Armazéns (ILWU), em solidariedade com os trabalhadores ameaçados em Longview, Washington, poucas pessoas que compareceram ao bloqueio sabiam qualquer coisa sobre Longview. Estavam lá em resposta ao despejo do acampamento do Occupy Oakland e em solidariedade com o que quer que entendessem como as maiores queixas do movimento Occupy. Como, então, caracterizar a relação entre os bloqueadores, muitos dos quais eram desempregados ou marginalmente empregados, e os trabalhadores do porto, altamente organizados? Quem foi afetado por tal bloqueio? Qual a relação entre o bloqueio e a tática grevista? Uma vez perguntadas, essas questões ligavam o bloqueio a mobilizações relacionadas: os piqueteros dos levantes na Argentina do final dos anos 1990 e começo dos 2000, trabalhadores desempregados que, sem outra forma de impor suas demandas por assistência governamental, passaram a bloquear estradas em bandos pequenos e dispersos; os piquets volants das greves na França em 2010 contra mudanças propostas na previdência, bandos de piqueteiros dispersos que apoiaram bloqueios feitos por trabalhadores mas que também realizaram seus próprios, independentemente da atividade grevista; as greves de trabalhadores recentes em supply chains da IKEA  e Walmart; uma proliferação dos bloqueios e um declínio da greve como tal (com exceção dos “BRICS” industriais, onde uma formação renegada de trabalhadores iniciou uma nova onda de greves).

LOGÍSTICA E CAPITALISMO HIDRÁULICO

Essas não são questões que pertencem apenas à teoria formal. Elas foram debatidas imediatamente por aqueles que participaram no bloqueio e aqueles que planejaram um segundo bloqueio no mês seguinte. [4] Alguns desses debates invocaram o conceito de “globalização” para dar sentido à centralidade cada vez maior do porto e da troca internacional no capitalismo, em um eco do movimento pela alterglobalização do começo dos anos 2000. Mas o que o termo “globalização” quer dizer enquanto marcador de uma nova fase histórica nunca foi claro. O capitalismo é global desde o começo, surgindo a partir da matriz sangrenta da expansão mercantil do início do período moderno. Após isso, suas fábricas e moinhos foram alimentados por fluxos planetários de matéria-prima, e produzem para um mercado que é igualmente internacional. A verdadeira questão então, é sobre que tipo de globalização temos hoje. Qual é a differentia specifica da globalização atual? Qual é a relação exata entre produção e circulação?

As supply chains de hoje se distinguem não só por sua extensão planetária e incrível velocidade, mas por sua integração direta entre manufatura e varejo, sua harmonização dos ritmos de produção e consumo. Desde os anos 80, escritores de administração apontavam o valor de modelos de produção “enxutos” e “flexíveis”, nos quais abastecedores mantém a capacidade de expandir e contrair a produção, assim como de mudar os tipos de mercadorias produzidos, ao se apoiar em uma rede de subcontratantes, trabalhadores temporários e estruturas organizacionais modificáveis, adaptações que requerem controle preciso sobre o fluxo de bens e informação entre as unidades. [5] Associadas originalmente com o sistema de produção da Toyota, e fabricantes japonesas em geral, essas formas corporativas são agora frequentemente identificadas sob a alcunha ampla de Just In Time (JIT), que se refere especificamente a uma forma de gerenciamento de inventário e em geral a uma filosofia de produção na qual empresas buscam eliminar qualquer forma de encalhe (seja produzido por elas ou por fornecedores). Derivando em parte dos japoneses e em parte da cibernética anglo-americana, o JIT é uma filosofia de produção circulacionista, orientada por um conceito de “fluxo contínuo” que entende tudo que não está em movimento como uma forma de desperdício (muda), uma baixa nos lucros. O JIT pretende submeter toda produção à condição de circulação, empurrando sua velocidade o quanto pode para a  velocidade da luz da transmissão de informação. Na perspectiva de nossos bloqueadores, essa ênfase no fluxo rápido e contínuo de mercadorias multiplica o poder do bloqueio. Na ausência de inventários parados, um bloqueio de apenas alguns dias pode efetivamente paralisar muitas manufaturas e varejos. [6] 

Nos sistemas JIT, manufaturas precisam coordenar fornecedores rio acima com compradores rio abaixo, então a velocidade sozinha é insuficiente. O timing é crucial. Através de coordenação precisa, empresas podem inverter a relação comprador-vendedor tradicional na qual os bens são primeiramente produzidos e então vendidos para um consumidor. Ao reabastecer bens no momento exato em que são vendidos, sem nenhum acúmulo de estoque ao longo do caminho, empresas JIT realizam um tipo estranho de viagem no tempo, fazendo parecer que eles só fazem produtos que já foram vendidos para o consumidor final.. Em oposição ao velho modelo de “produção empurrada” [“push production”], no qual fábricas geravam estoques massivos de bens que varejistas limpavam do mercado com promoções e cupons, no sistema atual de produção “puxada” [“pull” production system] “varejistas compartilham informações de POS [Ponto de Venda] com os fornecedores que então podem rapidamente reabastecer o estoque dos varejistas”. [7] Isso levou à integração funcional de fornecedores e varejistas, sob termos nos quais os varejistas frequentemente têm vantagem. Grandes compradores como Walmart reduzem seus fornecedores a meros vassalos, controlando diretamente o design e preço dos produtos enquanto ainda têm a flexibilidade de encerrar um contrato se necessário. Eles ganham os benefícios de uma integração vertical sem a responsabilidade que vem com a posse formal. Enquanto nos anos 80 alguns pensavam que a ênfase na flexibilidade e dinamismo passaria o poder de grandes multinacionais para empresas pequenas e ágeis, a produção enxuta representou ao invés disso apenas uma mudança de fase, e não o enfraquecimento no poder das empresas multinacionais. O novo arranjo inclui o que Bennett Harrison chamou de “concentração sem centralização” da autoridade corporativa.[8]

Manufatura enxuta, flexibilidade, sistemas de inventário just-in-time, produção “puxada”: cada uma dessas inovações agora forma uma parte componente da assim chamada “revolução logística”, e a correspondente “indústria logística”, que consiste em especialistas internos e terceiros no design e gerenciamento de redes de abastecimento. Permitidos pelas transformações técnicas na indústria naval e de transporte, a conteinerização em particular, assim como pelas possibilidades proporcionadas por tecnologias de informação e comunicação, trabalhadores logísticos agora coordenam diferentes momentos produtivos e fluxos circulatórios através de vastas distâncias internacionais, garantindo que o onde e quando da mercadoria atinja a precisão e velocidade do fluxo de dados. Confirmando a veracidade da citação de Marx nos Grundrisse sobre o desenvolvimento tendencial do mercado mundial, através da logística, o capital “se empenha simultaneamente para uma maior expansão espacial do mercado e para uma maior destruição do espaço pelo tempo.” [9] Mas a logística é mais do que a extensão do mercado mundial no espaço e a aceleração do fluxo de mercadorias: é o poder ativo de coordenar e coreografar, o poder de juntar e dividir fluxos; acelerar e desacelerar; mudar o tipo de mercadoria produzido, sua origem e destino; e, finalmente, coletar e distribuir conhecimento sobre a produção, movimento e venda de mercadorias enquanto fluem através da rede.

Logística é um termo multivalente. Nomeia uma indústria em si, composta de empresas que manuseiam a administração de frete e recebimento para outras corporações, assim como é uma atividade com a qual muitos negócios lidam internamente. Mas também se refere, como metonímia, a uma transformação da produção capitalista num geral: a “revolução logística”. Nesse último sentido, a logística coordena a subordinação da produção às condições de circulação, o devir-hegemônico daqueles aspectos do processo de produção que envolvem a circulação. Na imagem mundial idealizada da logística, manufatura é apenas um momento em um fluxo heraclitano contínuo; a fábrica se dissolve em fluxos planetários, picados em processos constitutivos modulares que, separados por milhares de quilômetros,  se combinam e recombinam de acordo com os caprichos mutáveis do capital. A logística objetiva transmutar todo o capital fixo em capital circulante, para melhor imitar e entrar em conformidade com a forma mais pura e líquida assumida pelo capital: dinheiro. Isso é impossível, é claro, já que o processo de valorização requer despesas com capital fixo em algum ponto ao longo dos circuitos de reprodução, e portanto alguém em algum lugar vai ter que assumir o risco que vem com investir em uma fábrica imóvel e maquinário. Mas a logística é sobre mitigar esse risco, sobre transformar um modo de produção em modo de circulação, no qual as frequências e capacidades de canais dos circuitos do capital são o que importa. Aqui a revolução logística entra em conformidade com a concepção hidráulica de capitalismo desenhada por Deleuze e Guattari nos anos 70, no qual o mais-valor resulta não tanto da transformação irreversível da matéria trabalhada mas da conjunção de um fluxo (dinheiro) com outro (trabalho). [10] Nessa perspectiva, influenciada pela descrição de Fernand Braudel das origens do capitalismo, e sua revisão pela teoria do sistema-mundo, o capital não é mais do que um comandante de fluxos, quebrando e unindo várias correntes para criar uma vasta irrigação e drenagem do poder social. A logística transforma sólidos em líquidos - ou, em seu extremo, em campos elétricos - tomando o movimento de elementos discretos e tratando-os como se fossem óleo em um cano, fluindo continuamente em pressões precisamente ajustáveis. [11]

O VALOR DE USO DA LOGÍSTICA

Até o momento, nosso projeto de mapeamento cognitivo situou corretamente nossos bloqueadores em um vasto horizonte espacial, uma rede de fluxos reticulados, em cujo contexto até os navios containers gigantescos, os milhares fervilhantes de bloqueadores, não passam de manchas. Mas o cenário que apresentamos é desprovido de profundidade, de história; é, em outras palavras, uma imagem, e podemos nos perguntar se parte da desorientação a qual o conceito de mapa cognitivo responde é agravada pela abordagem espacial (e visual). Talvez “mapa” funcione mais como uma metáfora do que qualquer outra coisa, se referindo a uma elaboração de conceitos e categorias em dimensões espaciais e temporais. Um mapa, mas também uma narrativa, tabela e diagrama, porque uma vez que adotamos a perspectiva de algum lugar, a visão para alguém, nos colocamos entre um passado e um futuro, na ponta da frente de uma corrente de causas que tem tanta necessidade de mapeamento quanto o arranjo espacial da supply chain, especialmente se quisermos ter algum senso do que pode acontecer a seguir.

Em outras palavras, vamos querer saber por que o capital se voltou para a logística. Porque o capital se reorganizou dessa forma? Em busca de quais vantagens e em resposta a quais impasses? Uma resposta, insinuada acima, é que a logística é um simples acelerador do fluxo de mercadorias. A logística é um método de diminuir o tempo de rotação do capital, e portanto de aumentar os lucros totais. Tempos de rotação curtos e ciclos de produção rápidos podem produzir lucros totais muito altos, mesmo com as taxas de lucro muito baixas (por rotação) com as quais os capitalistas se defrontaram nos anos 70. Assim, a logística foi uma solução à “longa recessão” que emergiu nos anos 70 e à crise geral que ela inaugurou, enquanto oportunidades de realização de lucro através do investimento no aparato produtivo (em novas fábricas e maquinário) começaram a desaparecer. Como muitas fontes nos dizem, um dos resultados é que o capital fluiu para ativos financeiros, para o mercado imobiliário e afins, amplificando a velocidade e disponibilidade da oferta monetária e do mercado de créditos, e concatenando novas formas de capital financeiro. Mas esse processo bem documentado de financeirização tem como sua contraparte oculta um gigante investimento de capital na esfera complementar da circulação de mercadorias (em vez da de dinheiro), aumentando o rendimento do sistema de transportes e acelerando a velocidade do capital mercantil através de um desenvolvimento na forma de petroleiros, complexos portuários, pátios ferroviários, centros de distribuição controlados roboticamente, e da tecnologia digital e de redes necessária para gerenciar o volume e complexidade aumentados da troca. O container de transporte e o futuro mercantil eram então inovações técnicas complementares, otimizando e sobrealimentando diferentes segmentos do circuito total de reprodução. As rotações cada vez mais rápidas de crédito e mercadorias ao redor do globo são transmissores que se reforçam mutuamente. No entanto, o investimento nessas áreas não é apenas sobre velocidade bruta; também busca a redução dos custos associados de circulação e portanto aumenta a carga total dos sistemas de transporte. Juntamente das economias óbvias de tamanho e mecanização oferecidas pela tecnologia do container, sistemas de informação integrados reduzem muito os custos administrativos associados com a circulação, liberando mais dinheiro para investimento direto na produção. [12]

Mas esses desenvolvimentos não podem ser entendidos nos termos de aumento e diminuição quantitativa apenas: aumento na velocidade e volume de fluxos mercantis, diminuição na sobrecarga. Aí está uma meta qualitativa importante também, descrita pela logística como “agilidade” - isso é, o poder de mudar, o mais rápido possível, a velocidade, localização, origem e destino dos produtos, assim como o tipo de produto para obedecer às condições voláteis do mercado. Corporações miram em “supply chains responsivas”, como o título de um capítulo de um manual popular sobre logística descreve, “de tal maneira que eles possam responder em uma menor janela temporal tanto às mudanças de volume quanto de variedade”. [13] Em seu papel interventivo, experts da logística precisam identificar e remediar gargalos para manter a agilidade. Mas como uma questão de design preventivo, especialistas vão buscar sincronizar e distribuir informação ao longo de toda a cadeia de abastecimento para que fornecedores possam tomar as ações apropriadas antes que a intervenção se torne necessária. Essa informação distribuída é referida como uma “supply chain virtual”, uma cadeia de representações simbólicas que fluem no sentido contrário ao do movimento físico das mercadorias. Empresas completamente diferentes podem usar dados distribuídos desse tipo para coordenar suas atividades. O resultado, como Bonacich e Wilson sinalizam, é que “a competição (…) sai do nível da empresa para o nível da cadeia de abastecimento”. [14] Mas transparência de dados não nivela o campo de batalha de forma alguma; tipicamente, um dos atores da rede de supply chain vai se manter dominante, sem necessariamente se colocar no centro das operações - o Walmart, por exemplo, insistiu que seus fornecedores colocassem tags de Identificação de Frequência de Rádios (RFID) em pallets e containers, permitindo o gerenciamento de seu inventário de modo muito mais eficaz, com um custo considerável para os fornecedores. [15]

Antes de considerarmos a razão final da revolução logística, uma nota histórica breve cabe aqui. Até a Segunda Guerra Mundial, o campo da logística corporativa e empresarial não existia. Em vez disso, a logística era uma questão puramente militar, se tratando dos métodos que exércitos usavam para abastecer a si mesmos, movendo suprimentos da retaguarda para a linha de frente, um negócio mundano mas fundamental que historiadores militares desde Tucídides reconhecem como fator chave do sucesso das guerras expedicionárias. A logística empresarial enquanto um campo distinto evoluiu nos anos 50, tendo como base as inovações na logística militar e se aproveitando do intercâmbio de pessoal entre o exército, a indústria e a academia muito característico do período pós guerra, intercâmbios supervisionados pelos campos da cibernética, teoria da informação e pesquisa de operações. A conexão entre a logística corporativa e militar se manteve íntima. Por exemplo, apesar de Malcolm McLean ter introduzido containers de navios empilháveis nos anos 50,  tendo também conseguido conteinerizar algumas linhas de transporte doméstico, foi a solução baseada em containers da Sea-Land Service para a crise logística da guerra do Vietnã que generalizaram a tecnologia e demonstraram sua efetividade para a troca internacional. [16] Da mesma, a tecnologia RFID foi empregada primeiro pelo exército dos EUA no Iraque e Afeganistão, para o Walmart então passar a explorar seus usos. Pouco tempo depois, o Departamento de Defesa e o Walmart  emitiram mandatos para seus maiores fornecedores, exigindo que usassem tags RFID em suas mercadorias. A conexão entre logística corporativa e militar é tão forte que muitos dos gerentes do Walmart e executivos - que determinaram o padrão para a indústria como um todo - vêm do exército. [17]

A logística, podemos dizer, é guerra por outros meios, guerra por meio da troca. Uma guerra de supply chains que conquista novos territórios enchendo-os com distribuições capilares, garantindo que as mercadorias fluam com facilidade para as extremidades mais distantes. Dessa perspectiva marcial, no entanto, pode ser útil distinguir uma logística ofensiva e uma defensiva. Nós já descrevemos as formas ofensivas acima: a logística busca saturar mercados, reduzir custos e produzir mais que os competidores, e manter a produtividade e variedade de produtos no máximo. Nesse aspecto ofensivo, a logística enfatiza flexibilidade, plasticidade, permutabilidade, dinamismo e morfogênese. Mas ela encontra seu complemento em uma série de protocolos fundamentalmente defensivos, mitigando riscos de bloqueios e terremotos, greves e escassez de fornecimento nas supply chains. Se “agilidade” é a palavra-chave da logística ofensiva, na defensiva se busca “resiliência” e se enfatizam os valores de elasticidade, homeostase, estabilidade e longevidade. Mas resiliência é um princípio conservador apenas ostensivamente; ela encontra estabilidade não na inflexibilidade mas em uma constante adaptabilidade auto-estabilizadora. [18] Nesse sentido, as formas defensivas e ofensivas da logística realmente são impossíveis de desentrelaçar, já que a agilidade firme de uma é a volatilidade da outra, e quanto mais flexível e dinâmica uma empresa se torna, mais incerteza ela “exporta” para o sistema como um todo, exigindo que outras empresas se tornem mais resilientes. Em todo caso, podemos esperar que, no contexto da crise econômica e do colapso ambiental iminente, a logística vai se tornar cada vez mais a ciência do gerenciamento de risco e da mitigação de crises.

A logística é a arte da guerra do capital, uma série de técnicas para a competição intercapitalista e interestatal. Mas tais guerras são, ao mesmo tempo, sempre travadas através de e contra os trabalhadores. Um dos motivos mais importantes para a extensão, complicação e lubrificação dessas supply chains planetárias é o fato de elas permitirem a arbitragem do mercado de trabalho. As supply chains sofisticadas e permutáveis do mundo contemporâneo permitem ao capital buscar os menores salários em qualquer parte do mundo e jogar os proletários uns contra os outros. Dessa forma, a logística foi uma das armas essenciais em uma ofensiva de décadas contra o trabalho. As supply chains planetárias tornadas possíveis pela conteinerização cercaram o trabalho, sitiando suas plataformas defensivas tais como os sindicatos e, eventualmente, destruindo-as completamente ao longo dos anos 80 e 90. Daí em diante, com o trabalho em fuga, a logística permitiu que o capital neutralizasse e superasse rapidamente todas as frágeis resistências criadas pelos trabalhadores. Mesmo que o capital ainda precise lidar com o problema de investimentos perdidos em edifícios fixos, máquinas e outras estruturas, as supply chains reconfiguráveis dão a ele o poder de driblar - e esfomear - forças de trabalho problemáticas. Ao dividir os trabalhadores em um “núcleo” composto de trabalhadores permanentes (frequentemente leais e conservadores) e uma periferia de trabalhadores temporários, terceirizados e fragmentados, que podem ou não trabalhar para a mesma empresa, o capital dispersou de modo bem efetivo a resistência proletária. Mas essas estruturas organizacionais exigem sistemas de coordenação, comunicação e transporte, expondo o capital para o perigo da interrupção no espaço da circulação, seja por trabalhadores encarregados de circular mercadorias ou por outros, como os bloqueadores do porto, que escolheram a circulação como seu local de ação efetiva, pelo simples motivo do capital já ter feito essa escolha também. As ações dos participantes no bloqueio do porto são, nesse sentido, determinadas duplamente pela reestruturação do capital. Eles estão ali não só porque a reestruturação do capital os deixou sem empregos ou em empregos em que táticas clássicas do movimento proletário já prescreveram, mas também porque o próprio capital tomou cada vez mais a esfera da circulação como objeto de suas intervenções. Nesse sentido, a teoria nos fornece não só o porquê da reestruturação do capital, mas o porquê de um novo ciclo de lutas.

VISIBILIDADE E PRÁXIS

Já deve estar óbvio que a logística é o projeto de mapeamento cognitivo do próprio capital. Daí então a proeminência da “visibilidade” nas palavras de ordem da indústria logística. Gerenciar uma supply chain é torná-la transparente. Os fluxos de mercadorias nos quais localizamos nossos bloqueadores são duplicados por fluxos de informação, por uma cadeia significante que supervisiona a cadeia mercantil, algumas vezes sem qualquer intervenção humana. Ao lado dos modelos antecipatórios das finanças, que buscam representar e controlar as flutuações caóticas do sistema de crédito e dinheiro, a logística também gerencia o fluxo complexo do sistema de mercadorias através de estruturas de representação. Podemos imaginar então, uma logística contra a logística, uma contralogística que usa os equipamentos conceituais e técnicos da indústria para identificar e explorar gargalos, para dar aos nossos bloqueadores uma orientação de onde eles se encontram nos fluxos do capital. Essa contralogística pode ser uma arte da guerra proletária para bater de frente com a ars belli capitalista. Imagine se nossos bloqueadores soubessem exatamente quais mercadorias os containers  em ancoradouros e navios específicos carregam; imagine se eles pudessem descobrir a origem e destino dessas mercadorias e calcular os efeitos possíveis - em termos funcionais e monetários - de atrasos ou interrupções em fluxos específicos. A posse de tal sistema contralogístico, que pode ser tão rudimentar quanto um inventário escrito, permitiria aos antagonistas focar sua atenção onde ela pode ser mais efetiva. Tomando como exemplo os conflitos sobre a previdência na França em 2010, nos quais bloqueios móveis em grupos que iam de 20 a 100 pessoas  atravessaram cidades francesas, apoiando os piquetes de trabalhadores em greve mas também bloqueando pontos chave de maneira independente, os poderes de coordenação e concentração possibilitados por tal sistema são imediatamente reconhecíveis. [19] Esse é um exemplo dos horizontes estratégicos que desabrocham nas lutas, mesmo que a maioria das discussões sobre contralogística tenham de ser conduzidas com ocasiões específicas em mente.

Mas além do valor prático da informação contralogística, há o que podemos chamar de seu valor existencial: a maneira como podemos ver as nossas ações e as dos outros, assim como os efeitos dessas ações coordenadas, dá a elas um sentido do qual careciam. A contagiosidade da Primavera Árabe - por exemplo - surge em parte por um efeito afirmativo das imagens transmitidas da luta. Ser capaz de ver as ações de alguém frente a violência do estado refletidas e até aumentadas pelas ações de outros pode ser profundamente motivador. Esse é mais um dos valores da teoria em relação a práxis - a habilidade de colocar lutas lado a lado, torná-las visíveis umas às outras e para si mesmas.

A importância da visibilidade - ou legibilidade, como ele chama - é essencial para uma das melhores discussões sobre a reestruturação do trabalho no capitalismo tardio, A Corrosão do Caráter de Richard Sennett. Sennett sugere que a “fraca identidade do trabalho” dos locais de trabalho contemporâneos - caracterizada especialmente pela computadorização, no tratamento dele - resulta da completa ilegibilidade dos processos de trabalho para os próprios trabalhadores. Ao visitar uma padaria que havia estudado anteriormente para seu livro The Hidden Injuries of Class, Sennett descobre que, em vez dos processos fisicamente desafiadores da padaria dos anos 60, os trabalhadores agora usam máquinas controladas por  computadores que conseguem produzir qualquer tipo de pão de acordo com as condições variáveis do mercado, com um simples apertar de botões. Como resultado, diferente dos padeiros no passado, os trabalhadores não se identificam com seus empregos ou tiram qualquer satisfação de suas tarefas, justamente porque o funcionamento das máquinas é fundamentalmente opaco para eles. A diferença entre inserir valores em uma tabela e assar pão é insignificante para eles. O trabalho concreto se tornou fundamentalmente abstrato, embaralhando, ao mesmo tempo, as distinções entre trabalho material e imaterial, manual e mental:

A panificação computadorizada mudou profundamente as atividades físicas de balé da padaria. Agora os padeiros não têm contato físico com os materiais ou as bisnagas de pão, monitorando todo o processo por ícones em telas que mostram, por exemplo, imagens da cor do pão, extraídas de dados sobre a temperatura e tempo de cozimento dos fornos;  poucos padeiros veem de fato as bisnagas que fazem. Suas telas de trabalho são organizadas da conhecida maneira do Windows; numa delas, aparecem ícones para muito mais tipos diferentes de pão do que os que eram preparados antes — bisnagas russas, italianas, francesas, todas possíveis tocando-se a tela. O pão tornou-se uma representação numa tela.

Como consequência de trabalhar dessa forma, os padeiros não mais sabem de fato como fazer pão. O pão automatizado não é nenhuma maravilha de perfeição tecnológica; as máquinas muitas vezes contam uma história diferente dos pães que crescem lá dentro, por exemplo, não avaliando com precisão a força do fermento, ou a verdadeira cor da bisnaga. Os trabalhadores podem mexer na tela para corrigir um pouco tais defeitos; o que não podem é consertar as máquinas, ou, o mais importante, fazer de fato o pão por controle manual quando elas, demasiadas vezes, pifam. Trabalhadores dependentes de programas, eles também não podem ter conhecimento prático. O trabalho não é mais legível para eles, no sentido de entender o que estão fazendo. [20]

Existe um paradoxo interessante aqui, que Sennett extrai muito bem nas páginas seguintes; quanto mais transparentes e “user-friendly” os processos computadorizados são, mais opaco o processo total que eles controlam se torna. Sua conclusão deveria incomodar qualquer concepção simplista dos potenciais da visibilidade ou dos “mapas cognitivos” como tais, um problema que Jameson reconheceu cedo, declarando  que “a tecnologia da informação [é] a solução representativa assim como o problema representativo do mapeamento cognitivo do sistema mundial”. [21] Os problemas para os trabalhadores de Sennett, assim como para nossos bloqueadores, são tão práticos quanto epistemológicos, uma questão de fazer e saber juntos. A menos que as representações que tais sistemas oferecem aumentem nossa capacidade de fazer e criar, de efetuar transformações no mundo, elas vão acabar tornando o mundo mais em vez de menos opaco, não importa o quão generosamente descritivas elas forem. E apesar da discussão de Sennett ser orientada para o mundo do trabalho (e imbuída com uma nostalgia típica da esquerda pelo savoir-faire e por identidades estáveis decorrentes do trabalho qualificado) os problemas da legibilidade dizem respeito tanto aos nossos bloqueadores quanto aos trabalhadores do porto. Para persistir além de um momento inicial, as lutas precisam reconhecer a si mesmas nos efeitos que criam, precisam ser capazes de mapear esses efeitos, não apenas ao se posicionar no espaço abstrato e concreto do capitalismo tardio, mas dentro de uma sequência política que possui tanto passado quanto futuro, que se abre em um horizonte de possibilidades. Tudo isso requer conhecimento, mas um conhecimento que pode ser praticado, trabalhado.

Nossos bloqueadores foram, portanto, desapropriados de conhecimento útil por um sistema técnico no qual só aparecem como atores secundários, como pontos de transmissão e inserção que requerem no máximo uma compressão estenográfica de seus arredores imediatos em um alguns kilobytes de informação útil. Bernard Stiegler - que apesar de um aparato teórico heideggeriano frequentemente tedioso é um dos melhores teóricos contemporâneos da tecnologia - descreve esse processo como uma “proletarização cognitiva e afetiva”, onde proletários são desapropriados do savoir faire enquanto produtores e do savoir vivre enquanto consumidores. Isso é parte de uma longa história do que é chamado de “gramatização” por Stiegler, na qual o conhecimento e a memória são discretizados em gestos corporais combinatórios e reproduzíveis - fonemas, grafemas, tecladas e bits - e então exteriorizados através da inscrição na matéria. [22] A tecnologia digital e de telecomunicação da gramatização contemporânea é o estágio final desse processo, de modo que nossas memórias e faculdades cognitivas agora existem na nuvem de dados, por assim dizer, parte de uma prótese tecnológica distribuída sem a qual somos efetivamente incapazes de nos orientar ou funcionar. Nessa descrição muito persuasiva, que felizmente vai contra as leituras otimistas da tecnologia da informação enquanto uma socialização progressiva do “intelecto geral”, estamos despossuídos não apenas dos meios de produção, mas também dos meios de pensamento e sensação.

Em muitos aspectos, Stiegler compartilha muito da exploração rica dos conceitos de alienação, fetichismo e reificação que seguiu a popularização do jovem Marx nos anos 60 por Herbert Marcuse, Guy Debord e outros. Podemos por isso nos perguntar sobre o humanismo latente em Stiegler. Sennett, no entanto, nos fornece uma importante ressalva sobre ler Stiegler nos termos humanistas: enquanto que um certo tipo de análise marxista pode esperar que seus padeiros queiram se reapropriar do conhecimento desapropriado deles pelas máquinas, poucos têm desejos assim. Suas vidas reais estão em outros lugares, e quase nenhum espera ou deseja dignidade e significado de seus empregos como padeiros. A única pessoa que se conforma ao tipo esperado do trabalhador alienado, na padaria de Sennett, é o supervisor, que trabalhou para sair de aprendiz de padeiro para gerente, e que entende o desperdício e perda de habilidade na padaria como uma afronta pessoal, imaginando que se a padaria fosse uma cooperativa os trabalhadores talvez se interessassem mais em saber como as coisas são feitas. Os outros trabalhadores, no entanto, tratam o trabalho não como a realização de uma habilidade mas como uma série de aplicações indiferentes de uma capacidade abstrata de trabalho. A panificação significa menos do que apertar “botões em um programa de Windows projetado por outros”. [23] O trabalho é tão ilegível para eles quanto é estranho às suas necessidades, mas não estranho no sentido de que o reconhecem como uma parte perdida ou roubada de si mesmos que buscam recuperar através da luta. Essa é uma das consequências mais importantes da reestruturação do processo de trabalho gerido pela revolução logística: a precarização e irregularização do trabalho, a desagregação do processo de trabalho em partes componentes cada vez mais ilegíveis e geograficamente separadas, assim como os incríveis poderes que o capital possui para derrotar qualquer luta por melhores condições, significam que não só é impossível para a maioria dos proletários visualizarem seu lugar dentro desse sistema complexo, mas também para se identificarem com aquele lugar como uma fonte de dignidade e satisfação, já que seu significado final, em relação ao sistema total, se mantém indescritível. A maioria dos trabalhadores não pode dizer hoje, da forma que os trabalhadores do velho mundo podiam (e frequentemente diziam): fomos nós que construímos esse mundo! É a nós que este mundo pertence! A reestruturação do modo de produção e a subordinação da produção às condições da circulação fecham então o horizonte clássico do antagonismo proletário: a tomada dos meios de produção para as intenções de uma sociedade gerida pelos trabalhadores. Não se pode imaginar tomar algo que não se consegue visualizar, e dentro do qual o próprio lugar continua incerto.

A TESE DA RECONFIGURAÇÃO

As dificuldades que os padeiros de Sennett (ou nossos bloqueadores) encontram não são simplesmente falhas de conhecimento, que podem ser resolvidas através de intervenção pedagógica; independentemente do quão valioso um mapa cognitivo desses processos possa ser, os problemas com que nos defrontamos na visualização da autogestão dos meios de produção existentes se originam das dificuldades práticas - para mim, impossibilidades - que tal prospecto encontraria. A opacidade do sistema, nesse sentido, provém de sua intratabilidade, e não o contrário. Em um artigo perspicaz sobre a indústria logística e a luta contemporânea, Alberto Toscano (que recentemente dedicou energia considerável a criticar os teóricos da comunização) culpa o “espaço-tempo de muito do anticapitalismo atual” por se apoiar na “subtração e interrupção, em vez do ataque e expansão”. [24] Toscano propõe, como alternativa, uma logística anticapitalista que ameaça os vários locais produtivos e infraestruturas do capitalismo tardio enquanto “potencialmente reconfiguráveis” em vez de objeto de uma “mera negação ou sabotagem”. Sem dúvidas, qualquer luta que busque a superação do capitalismo vai ter de considerar “o que pode ser extraído dos trabalhos mortos que se aglomeram na crosta terrestre”, mas não há motivo para se assumir do início, como faz Toscano, que todos os meios de produção existentes devem possuir algum uso para além do capital, e que toda inovação tecnológica precisa, quase que categoricamente, ter uma dimensão progressiva que é recuperável através de um processo de “negação determinada”. Como vimos acima, o valor-de-uso produzido pela indústria logística é um conjunto de protocolos e técnicas que permitem que empresas encontrem os menores salários em todo o mundo, e que evitem a inconveniência da luta de classes quando ela emerge. Nesse sentido, diferente de outras tecnologias capitalistas, a logística é apenas parcialmente sobre explorar as eficiências das máquinas para levar os produtos ao mercado de forma mais rápida e barata, já que o propósito principal de tecnologias mais rápidas e baratas é de compensar o custo de outra forma proibitivo de explorar forças de trabalho no outro lado do mundo. O conjunto tecnológico que a logística supervisiona é então fundamentalmente diferente de outros conjuntos como a fábrica Fordista; ele economiza custos de trabalho ao diminuir o salário, em vez de aumentar a produtividade do trabalho. Para colocar em termos marxistas, é o mais-valor absoluto se disfarçando de mais-valor relativo. O valor-de-uso da logística, para o capital, é a exploração em sua forma mais bruta, e portanto é de se duvidar que ela possa formar, como escreve Toscano, “o phármakon do capitalismo, a causa de suas patologias (desde a hipertrofia danosa do transporte em longas distâncias de mercadorias até a expansão sem rumo da conurbação contemporânea) assim como o domínio potencial de soluções anticapitalistas”. 

Os trabalhadores tomarem os postos de comandos ofertados pela logística - tomarem, em outras palavras, o painel de controle da fábrica global - significaria que eles teriam de gerenciar um sistema que é constitutivamente hostil a eles e suas necessidades, supervisionar um sistema no qual diferenciais salariais extremos estão constituídos na própria infraestrutura. Sem esses diferenciais, a maioria das supply chains se tornariam dispendiosas e desnecessárias. Mas talvez, ao invés disso, “reaproveitamento” signifique para Toscano um tipo de improvisação com o maquinário da logística como o encontramos, vendo quais outros propósitos ele pode ter, ao invés de imaginar uma apropriação de seus postos de comando? Qualquer processo revolucionário vai improvisar com aquilo que encontrar disponível por questão de necessidade, mas é exatamente a “conversibilidade” ou “reconfigurabilidade” dessas tecnologias que parece questionável. O capital fixo do regime contemporâneo de produção é desenhado para a extração do mais-valor máximo; cada parte é projetada para sua inserção nesse sistema global; portanto, a presença de potenciais comunistas como features não intencionais - “oportunidades”, como são algumas vezes chamadas - da tecnologia contemporânea precisa ser discutida, não assumida como algo natural. [25] Muito do maquinário da logística contemporânea busca agilizar a circulação de mercadorias e não valores-de-uso, produzir não as coisas que são necessárias ou benéficas mas aquelas que são lucrativas: caixas de cereais empacotadas individualmente, por exemplo, cuja simbologia complexa as distingue das dúzias de variações de cereais praticamente idênticos a elas (vendidos e consumidos em tamanhos e tipos que refletem arranjos sociais especiais, tais como a família nuclear). O quanto da aclamada flexibilidade do sistema logístico é realmente uma flexibilidade de variedade de produtos, de diferenciais salariais e desequilíbrios comerciais? O quanto se tornaria inútil uma vez eliminada a forma-mercadoria, uma vez eliminada a necessidade de comprar e vender? Além disso, o sistema logístico contemporâneo é projetado para uma balança comercial internacional particular, com certos países como produtores e outros como consumidores. Esse é um fato fundamentalmente relacionado com os desequilíbrios salariais mencionados anteriormente, o que significa que a desigualdade do sistema global tem em parte a ver com a distribuição desigual dos meios de produção e infraestruturas de circulação - a concentração da capacidade portuária na Costa Oeste dos EUA ao invés da Costa Leste, por exemplo, por causa da localização das manufaturas na Ásia. Redistribuir a quantidade de bens produzidos localmente ou à distância - se algo assim fosse fazer parte de uma ruptura com a produção capitalista - significaria um arranjo completamente diferente das infraestruturas e provavelmente diferentes tipos de infraestrutura também (navios menores, por exemplo).

Podemos também questionar a tese da reconfiguração a partir da perspectiva da escala. Por causa da distribuição desigual de meios e capitais produtivos - sem falar na tendência de especialização geográfica, a concentração de certas linhas em certas regiões (a indústria têxtil em Bangladesh, por exemplo) - o sistema não é escalonável senão para cima. Ele não permite uma divisão por continentes, hemisférios, zonas ou nações. Ele precisa ser gerenciado como uma totalidade ou não ser gerenciado. Portanto, quase todos os defensores da tese da reconfiguração assumem uma distribuição altamente volumosa e hiper-global em seu sistema socialista ou comunista, mesmo que a utilidade de tais distribuições para além da produção para lucro ainda seja incerta. Outro problema, no entanto, é que a administração em tal escala introduz uma dimensão sublime para o conceito de “planejamento”; essas escalas e dimensões estão radicalmente além das capacidades cognitivas humanas. O nível de uma “administração de coisas” impessoal e o nível de uma “livre associação de produtores” estão menos em contradição do que separados por um vasto abismo. Toscano deixa tal abismo marcado por um apelo sinistro ao conceito de “alienação necessária” de Herbert Marcuse enquanto um infeliz mas necessário acompanhante da manutenção do sistema técnico. Outros partidários da tese da reconfiguração, quando perguntados sobre o escalonamento dos desejos emancipatórios e das necessidades de proletários antagonistas a uma administração global, invariavelmente usam de um verdadeiro deus ex machina dos supercomputadores. Computadores e algoritmos, nos dizem, vão determinar como as mercadorias devem ser distribuídas; os computadores vão se expandir a partir das necessidades de liberdade e igualdade dos antagonistas proletários e descobrir uma maneira de distribuir o trabalho e os produtos do trabalho de uma forma satisfatória para todos. Mas como uma produção mediada por algoritmos iria funcionar, e porque seria diferente de uma produção mediada pela competição e o mecanismo de preços ainda é algo radicalmente incerto, e certamente vazio de qualquer argumento verdadeiro. O tempo de trabalho ainda seria o determinante para acessar a riqueza social? A participação livre (no trabalho) e o acesso gratuito (às necessidades) seriam facilitadas em tal sistema? Se o objetivo é apenas uma igualdade de produtores - igual pagamento para igual trabalho - como lidaríamos com as desigualdades de produtividade, motivação e iniciativa que resultam da manutenção do requisito de que “aquele que não trabalha, não come”? É isso que “alienação necessária” significa?

Mas a não-escalabilidade (ou escalabilidade unidirecional) do sistema logístico introduz um problema muito pior. Mesmo que a administração global comunista - por um supercomputador ou postos ascendentes de delegados e assembléias - fosse possível e desejável nas bases do sistema técnico dado, uma vez que consideramos o caráter histórico do comunismo, as coisas parecem muito mais duvidosas. O comunismo não cai do céu, mas precisa emergir de um processo revolucionário, e dado o caráter atual de tudo ou nada da divisão internacional do trabalho - a concentração da manufatura em determinados países, a concentração de capacidade produtiva para algumas linhas essenciais do capital em um punhado de fábricas, como mencionado acima - qualquer tentativa de tomar os meios de produção exigiriam uma tomada imediatamente global. Precisaríamos de um processo revolucionário tão rapidamente bem sucedido e extensivo que todas as supply chains de longas distâncias fossem administradas por produtores não-capitalistas em uma questão de meses, em oposição ao cenário muito mais provável de que uma ruptura com o capital vai ser geograficamente concentrada a princípio, para então se espalhar a partir dali. Na maioria dos casos, portanto, a manutenção desses processos de produção e supply chains distribuídos vão implicar em trocas com parceiros capitalistas, um encadeamento à produção por lucro (necessário para a sobrevivência, como nos dirão os pragmáticos) cujos resultados não serão menos que desastrosos, como um estudo dos exemplos russo e espanhol mostrarão. Em ambos os casos, a necessidade de manter uma economia de exportação para comprar bens vitais nos mercados internacionais - especialmente armas - implicou em quadros revolucionários e militantes tendo de usar força direta e indireta para induzir trabalhadores a bater metas de produção. Elevar a produtividade e capacidade produtiva agora se torna o passo transicional no caminho ao comunismo de antes, e na Espanha anarquista, assim como na Rússia bolchevique, os quadros se puseram a trabalhar imitando o crescimento dinâmico da acumulação capitalista através de mecanismos políticos diretos, em vez da força indireta do salário, apesar de que, em ambos os casos, estruturas de incentivo econômico (taxas por peça, bônus de pagamento) tenham sido introduzidas em algum momento por questão de necessidade. É difícil ver como qualquer coisa que não um novo processo revolucionário - um mitigado pelo estabelecimento de novas estruturas disciplinares e repressivas - poderia ter restaurado esses sistemas até mesmo para a “fase baixa do comunismo” baseada em vale-trabalho que Marx advoga na “Crítica do Programa de Gotha”, que dirá então para uma sociedade baseada no trabalho não-forçado e de livre acesso.

As discussões tradicionais de tais assuntos assumem que, enquanto países subdesenvolvidos como a Rússia e a Espanha não tiveram escolha além de desenvolver sua capacidade produtiva primeiro, proletários em países completamente desenvolvidos poderiam expropriar e autogerir imediatamente os meios de produção sem qualquer necessidade de um desenvolvimento forçado. Isso pode ter sido verdade no período imediatamente pós-guerra até os anos 70, mas uma vez que a desindustrialização começou de verdade, essa chance foi oficialmente perdida - a reestruturação e redistribuição global dos meios de produção nos deixa em uma posição provavelmente tão ruim quanto, se não pior, que as das revoluções do século 20, quando uma grande porcentagem dos meios de produção para bens de consumo estavam à mão, e era possível encontrar na própria região fábricas de sapato, moinhos têxteis e refinarias de aço. Uma breve avaliação dos locais de trabalho nos próprios arredores deveria convencer a maioria de nós - nos EUA, pelo menos, e eu suspeito que na maior parte da Europa - da impraticabilidade absoluta da tese da reconfiguração. Os trabalhos administrativos e de serviço nos quais a maioria dos proletários hoje trabalham são sem sentido exceto como pontos de intercalação com os vastos fluxos planetários - um mega varejo, uma empresa de software, uma linha de cafeterias, um banco de investimentos, uma organização sem fins lucrativos. A maioria desses trabalhos dizem respeito a valores-de-uso que seriam tornados não-usos pela revolução. Para satisfazer suas próprias necessidades e as dos outros, esses proletários deveriam ter de engajar na produção de comidas e outras necessidades, capacidade essa que não existe na maioria dos países. A ideia de que aproximadamente 15% dos trabalhadores ainda fariam atividades úteis em benefício dos outros - enquanto cuidadores do futuro comuinista - é politicamente impraticável, mesmo que o sistema possa produzir suficientemente daquilo que as pessoas precisam, e a troca por insumos não crie uma nova obstrução. Junta-se a isso o fato de que o desenvolvimento da própria logística em paralelo com o sistema de créditos multiplica enormemente o poder do capital para disciplinar zonas rebeldes através de rescisão de créditos (fuga de capitais), embargos, e contratos punitivos de troca.

HORIZONTES E PROSPECTOS

O todo é o falso, nesse caso, não tanto porque não pode ser adequadamente representado ou porque qualquer tentativa de tal representação é violenta a suas contradições internas, mas porque todas essas representações globais desmentem o fato de que o todo não pode ser possuído enquanto tal. A totalidade do sistema logístico pertence ao capital. É uma visão de todo lugar (ou de lugar algum), uma visão espacial, espaço esse que apenas o capital enquanto processo distribuído e totalizante é capaz de habitar. Apenas o capital pode nos combater em todos os lugares ao mesmo tempo, porque o capital não é de forma alguma uma força que enfrentamos, mas o próprio território no qual o enfrentamento acontece. Ou melhor, ele é uma força, mas um campo de força, algo que permeia em vez de se opor. Diferente do capital, lutamos em locais e momentos específicos - aqui, ali, agora, antes. Ser um partisão significa necessariamente aceitar a parcialidade da perspectiva, assim como a parcialidade do combate que oferecemos.

As fracas táticas do presente - a revolta pontual, o bloqueio, a ocupação do espaço público - não são os produtos estratégicos de uma consciência antagonista que desconhece seu inimigo, ou que falhou em examinar adequadamente as possibilidades oferecidas pelas tecnologias atuais. Pelo contrário, as táticas de nossos bloqueadores emergem de uma consciência que já investigou as possibilidades ofertadas, que entendeu, mesmo que de maneira intuitiva, como a reestruturação do capital encerrou todo um repertório estratégico. As supply chains que prendem esses proletários à fábrica planetária são cadeias radicais, no sentido de que chegam até sua raiz, e de que também pela raiz precisam ser cortadas. A ausência de oportunidades para a “reconfiguração” vai dizer que em suas tentativas de romper com o capitalismo, os proletários vão ter de encontrar outras maneiras de satisfazer suas necessidades. Os problemas logísticos que encontrarão vão ter a ver com substituir aquilo que é fundamentalmente indisponível sem a ligação com essas redes planetárias e suas consequências malignas. Em outras palavras, a criação do comunismo vai exigir, como questão de sobrevivência, um processo massivo de desarticulação da fábrica planetária. Não teremos a oportunidade de utilizar todos (nem mesmo muitos dos) meios de produção técnicos que encontrarmos, já que muitos desses serão tornados órfãos pela quebra com a produção capitalista. Mas então, como fica a estratégia? Se a teoria é o horizonte que se abre a partir das condições atuais de luta, a estratégia é outra coisa, menos um horizonte do que um prospecto. A estratégia é um momento particular em que a teoria se reabre para a prática, sugerindo não apenas um plano de ação possível, mas um desejável. Se um horizonte nos coloca em frente de uma gama de possibilidades, o momento estratégico surge quando as lutas atingem um certo cume, uma elevação, da qual um  conjunto mais estreito de opções se abre - um prospecto. Prospectos são um intermédio entre onde estamos e o horizonte longínquo da comunização.

Quais são nossos prospectos, então, com base no ciclo de lutas recente? Nós sabemos agora que a reestruturação da relação capital-trabalho tornou a intervenção na  esfera da circulação uma tática óbvia e de muitas maneiras efetiva. O bloqueio, pelo que parece, pode assumir uma importância igual a da greve nos próximos anos, assim como as ocupações de espaços públicos e lutas por ambientes urbanos e rurais remodelados para se tornarem melhores condutores dos fluxos de trabalho e capital - como os conflitos recentes na Turquia e Brasil demonstraram. Nossos prospectos são de que, em vez de propagandear por formas de ações em locais de trabalho que seriam dificilmente bem sucedidas ou generalizadas, podemos aceitar nosso novo horizonte estratégico e trabalhar, em vez disso, para disseminar informações sobre como intervenções nessa esfera podem se tornar mais efetivas, quais são seus limites e como podem ser superados. Podemos trabalhar para disseminar a ideia de que a tomada da fábrica globalmente distribuída não é mais um horizonte significativo, e podemos ensaiar um mapeamento das novas relações de produção que leva esse fato em conta. Por exemplo, podemos tentar representar graficamente os fluxos e articulações ao nosso redor de maneiras que compreendam suas fragilidades, assim como as melhores formas de bloqueá-las como parte da conduta de lutas específicas. Esses seriam mapas semi-locais - mapas que operam a partir da perspectiva de determinada zona ou área. Partindo desse conhecimento, também podemos desenvolver um entendimento funcional da infraestrutura do capital, de modo que se saiba quais tecnologias e meios de produção seriam tornados órfãos com uma desarticulação parcial ou total dos fluxos planetários, quais seriam conservados e convertidos, e quais seriam as maiores questões práticas e técnicas encarando uma situação revolucionária. Como garantir que haverá água e que os esgotos funcionam? Como evitar um derretimento de reatores nucleares? Como é a produção local de comida? Que tipos de manufatura existem nas proximidades, e que tipos de coisas podem ser feitas com seu maquinário produtivo? Isso seria um processo de inventário, um balanço das coisas que encontramos em nossos arredores imediatos, um que não imagina um domínio do ponto de vista da totalidade global mas, em vez disso, um processo de bricolagem do ponto de vista de frações partisãs que sabem que teriam de começar suas lutas de locais particulares e sitiados, e vencer suas batalhas sucessivamente ao invés de todas de uma vez. Nada disso significa estabelecer um projeto para a conduta das lutas, um programa de transição. Pelo contrário, isso significa produzir o conhecimento que a experiência das lutas passadas já demandou e que provavelmente será útil para as próximas.


Notas da tradução:

* - Aqui, Bernes se refere ao texto de Lenin traduzido ao português como “Que fazer?” e ao inglês como “What is to be done?”, optamos por traduzir o título do inglês ao pé da letra (algo como “O que deve ser feito?”) para que ele se mantivesse “estranhamente passivo”.

** - ‘Prospectos’ pode parecer uma palavra estranha, ao menos aos leitores brasileiros, mas escolhemos mantê-la ao invés de traduzir para ‘possibilidades’ ou ‘perspectivas’ por sua especificidade neste texto - evidenciada em sua última seção - e importância na obra de Bernes em geral. Ver “The Future of Revolution: Communist Prospects from the Paris Commune to the George Floyd Rebellion”.

Notas do autor:

[1] “Carta de Marx a Arnold Ruge”, Disponível aqui.

[2] JAMESON, Fredric. Postmodernism, or the Cultural Logic of Late Capitalism, New Left Review 146 (julho-agosto de 1984), p. 84.

[3] Para uma exposição completa sobre a traição temática dentro da ultraesquerda ver “A History of Separation” no seguinte Endnotes 4. (Disponível no original aqui. Apenas o prefácio deste texto está traduzido ao português, disponível aqui; N. T.) 

[4] Para um exemplo, leia “Blockading the Port Is Only the First of Many Last Resorts” [Bloquear o porto é apenas o primeiro de muitos últimos recursos] (bayofrage.com), um texto que trata de muitas das questões traçadas acima, e que foi distribuído no Occupy Oakland depois do primeiro bloqueio e antes do segundo, feito em várias cidades. Em muitos aspectos, o presente ensaio é uma formalização e refinamento de um processo de discussão, reflexão e crítica iniciado por esse texto. 

[5] A “produção enxuta” começa como uma formalização dos princípios por trás do Sistema de Produção da Toyota, entendido como uma solução para os problemas das indústrias americanas durante os anos 80. Ver WOMACK, James P. et al.. A máquina que mudou o mundo. Rawson Associates, 1990. O conceito de “flexibilidade” emerge de debates feitos no final dos anos 70 sobre a possibilidade de um sistema industrial alternativo baseado na “especialização flexível” em vez das economias em escala fordistas, um sistema  pensado para ser possibilitado por  máquinas de Controle Numérico Computadorizado (CNC) altamente ajustáveis. Ver PIORE, Michael J. e SABEL, Charles F.. The Second Industrial Divide: Possibilities For Prosperity. Basic Books, 1984.

[6] End of the Line do escritor de administração Barry Lynn é dedicado à demonstração da fragilidade perigosa do sistema de produção distribuído dos dias atuais, onde um “colapso em qualquer ponto implica cada vez mais em um colapso da linha inteira, da mesma forma que um distúrbio em uma rede elétrica em Ohio disparou o grande apagão norte-americano de 2003”. LYNN, Barry C., End of the Line: The Rise and Coming Fall of the Global Corporation. Doubleday, 2005, p. 3.

[7] BONACICH, Edna e WILSON, Jake B.. Getting the Goods: Ports, Labor, and the Logistics Revolution. Cornell University Press, 2008, p. 5.

[8] HARRISON, Bennet. Lean and Mean: The Changing Landscape of Corporate Power in the Age of Flexibility. Gilford Press, 1997, p. 8-12.

[9] MARX, Karl. Grundrisse: Manuscritos econômicos de 1857-1858: Esboços da crítica da economia política. Editora Boitempo, 2015, p. 721.

[10] DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. O Anti-Édipo: capitalismo e esquizofrenia. Editora 34, 2010, p. 271-272.

[11] Braudel, notavelmente, trata o capitalismo como a intervenção em um plano pré-existente de transações de mercado feita por atores poderosos capazes de suspender as regras do fair play para benefício próprio. O capital é fundamentalmente uma manipulação da circulação e dos fluxos de uma economia de mercado. BRAUDEL, Fernand. The Wheels of Commerce. University of California Press, 1992), p. 22.

[12] Na teoria marxista do valor, a circulação é frequentemente entendida como uma esfera “improdutiva” separada das atividades geradoras de valor da esfera da produção. Já que nenhum mais-valor pode ser adicionado através de “atos de compra e venda”, que envolvem apenas a “conversão do mesmo valor de uma forma à outra”, os custos associados com essas atividades (contabilidade, inventário, varejo e administração) são puros e simples faux frais, deduções do mais-valor total (MARX, Karl. O Capital, vol II. O processo de circulação do capital. Ed. Boitempo.). No entanto, Marx argumenta que determinadas atividades associadas com a circulação - o transporte em particular - são geradoras de valor, pelo motivo convincente de que seria inconsistente tratar o transporte de carvão do fundo da mina ao topo como produtivo, e seu transporte da mina para uma usina como improdutivo. A circulação, então, se refere a dois processos diferentes que são conceitualmente distintos mas quase sempre entrelaçados na prática. Primeiro, há uma metamorfose na forma da mercadoria, conforme as mercadorias transformam-se em dinheiro e vice-versa. Essa é a “circulação” que ocorre não em um espaço de fato, mas no espaço-fase ideal da forma-mercadoria. Como Marx aponta, “Valores-mercadorias móveis, como algodão ou ferro-gusa, jazem no mesmo depósito de mercadorias, ao mesmo tempo que percorrem dezenas de processos de circulação, sendo comprados e vendidos pelos especuladores”. Precisamos distinguir esse tipo de circulação propriamente improdutiva - “[onde] o que realmente se move é o título de propriedade sobre a coisa, não a coisa em si” - da circulação física do objeto no espaço, que pode ser entendida enquanto uma extensão das atividades geradoras de valor da esfera produtiva (ibid., p. 255).

[13] CHRISTOPHER, Martin. Logistics and Supply Chain Management. FT Press, 2011, p. 99.

[14] BONACICH, Edna e WILSON, Jake B.. Getting the Goods: Ports, Labor, and the Logistics Revolution. Cornell University Press, 2008, p. 5.

[15] JONES, Erick e CHUNG, Christopher. RFID in Logistics. CRC Press, 2010, p. 87.

[16] A história de Malcolm McLean e da Sea-Land é contada em A Caixa: Como os Contentores Tornaram o Mundo Mais Pequeno e Desenvolveram a Economia Mundial, de Marc Levinson.

[17] Bill Simon, CEO do Walmart e ex-oficial da marinha, iniciou programas que recrutam gerentes e executivos do exército. BERGDAHL, Michael, What I Learned From Sam Walton. John Wiley, 2004, 155. Ele também estabeleceu programas de “liderança” baseados no modelo de academias militares.

[18] CHRISTOPHER, Martin. Logistics and Supply Chain Management. FT Press, 2011, p. 189-210.

[19] Os bloqueios a que me refiro diferem das barricadas clássicas no sentido de serem ofensivos ao invés de defensivos. O objetivo principal das barricadas do século XIX era que dispersassem as forças do Estado, fazendo com que pequenos grupos de soldados pudessem ser derrotados à força ou convertidos após a confraternização. No entanto, a fraqueza da luta de barricadas, como é descrita por autores que vão de Blanqui a Engels, era que os partisões defendiam territórios específicos (suas próprias vizinhanças) e não podiam se locomover como fosse preciso. Ver “Instruções para um levante armado” de Louis-Auguste Blanqui (tradução disponível aqui) e a introdução de Engels para “As Lutas de Classes na França de 1848 a 1850” de Marx (tradução disponível aqui).

[20] SENNET, Richard. A corrosão do caráter: as consequências pessoais do trabalho no novo capitalismo; tradução Marcos Santarrita. – 16ª ed. – Rio de Janeiro: Record, 2015, p. 272 - 275.

[21] JAMESON, Fredric. The Geopolitical Aesthetic: Cinema and Space in the World System. Indiana University Press, 1995, p. 10.

[22] STIEGLER, Bernard. For a New Critique of Political Economy. Polity, 2010, p. 40-44.

[23] SENNET, Richard. A corrosão do caráter: as consequências pessoais do trabalho no novo capitalismo; tradução Marcos Santarrita. – 16ª ed. – Rio de Janeiro: Record, 2015, p. 284.

[24] TOSCANO, Alberto. “Logistics and Opposition”, Mute 3, no. 2 (o pdf deste texto em inglês pode ser encontrado nesta lista: https://logisticalnightmaressite.wordpress.com/readings/).

[25] Teorias marxistas da tecnologia frequentemente divergem em dois caminhos, com cada um podendo ser traçado às obras de Marx. A visão dominante afirma que as tecnologias capitalistas são fundamentalmente progressivas, primeiro porque reduzem o tempo necessário de trabalho e portanto têm o potencial de libertar os humanos da necessidade de trabalhar, e segundo porque a industrialização tem como efeito uma “socialização” fundamental da produção, obliterando as hierarquias que em uma vez pertenceram aos ofícios particulares (eg. eg. Marx, Grundrisse [MECW], 90-92 [Nicolaus trans.]). Nessa visão ortodoxa, o comunismo está latente no arranjo socializado e cooperativo da fábrica, cujo substrato técnico entra cada vez mais em uma contradição produtora de crises com a natureza ineficiente e não planejada do mercado capitalista. Mas existe também uma perspectiva marxista heterodoxa da tecnologia, cujos exemplos são escritores como Raniero Panzieri e David Noble, e cujas fontes mais claras se encontram no capítulo “Maquinaria e grande indústria” do primeiro volume d’O Capital, em particular a seção sobre a fábrica. Ali Marx sugere que, no sistema fabril moderno, a dominação do capital sobre o trabalho “adquire uma realidade técnica e palpável”. Na fábrica “as enormes potências da natureza e do trabalho social massivo que estão incorporadas no sistema da maquinaria […] constituem, com este último, o poder do “patrão” (master)” (MARX, O Capital: livro 1, Boitempo, 2023, p. 495). Mas se a maquinaria é uma materialização da dominação capitalista - enquanto uma objetificação do “patrão” - então temos toda razão em duvidar de que podemos desfazer tal dominação sem negar os aspectos técnicos e palpáveis da maquinaria. Se trabalhadores fossem tomar o maquinário da produção e autogerir as fábricas, isso poderia apenas nos levar a um outro modo de administrar a dominação que foi sedimentada no maquinário da produção. A perspectiva heterodoxa está obviamente em consonância com as conclusões desse artigo, mas ainda há muito trabalho a ser feito no desenvolvimento de uma teoria da tecnologia adequada. Nós não podemos apenas inverter a visão ortodoxa e progressivista da maquinaria, que assume que todo avanço das forças produtivas constitui uma ampliação das possibilidades do comunismo e declarar, em oposição a ela, que toda tecnologia é politicamente negativa ou inerentemente capitalista. Ao invés disso, temos de examinar as tecnologias a partir de uma perspectiva técnica, a partir do prospecto comunista, e considerar que possibilidades elas realmente concedem, dadas as circunstâncias trágicas de seu nascimento.