Tradução - A Sociosfera (Phil A. Neel)

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Nota de Tradução

Por Grupo Comunista Antípoda

Esse texto de Phil A. Neel traduzido pelo GCA faz parte de um conjunto de textos feitos para acompanhar a leitura de Hellworld: The Human Species and the Planetary Factory, iniciando com a discussão sobre a ideia de uma sociosfera, uma rede formada a partir das relações sociais do capitalismo que agora se encontra em escala planetária.
Atualmente, não é incomum a ideia de que é o exoesqueleto de metais e peças de computadores que dominam a humanidade e impõe sobre ela a dominação do capital. Nesse caso, são atribuídos ao maquinário tanto o castigo quanto a salvação, pois na medida em que a produção se tornaria cada vez mais autônoma e a fábrica é deixada mais vazia, menos necessário seria o chicote e não haveria alguém a se explorar no chão de fábrica. Essa ideia, no entanto, está enganada. Não é de metais e componentes eletrônicos que a grande fábrica precisa impreterivelmente para sobreviver e, por isso, nem são deles que depende a exploração ou a interrupção desta. É na verdade o conjunto de relações sociais capitalistas que fornece ao capital sua aparente onipresença e onipotência, é por elas atuarem enquanto seus neurônios que uma compradora de soja a quilômetros de distância pode terraplanar todo um município do Mato Grosso do Sul, são elas que fazem do capital uma “homeostase” de concreto e metal que se perpetua por todo o globo.

O texto, portanto, vai contra as tendências que excluem qualquer poder de agência da humanidade no metabolismo social em que está inserida, ao mostrar que não fosse a humanidade, tal metabolismo cessaria e a grande fábrica entraria em um processo irreversível de decomposição - pois não é o concreto e o metal que atuam enquanto o espírito desse falso deus, e sem sinapses não sobrevive o corpo de carne -; mas também contra aquelas - maravilhadas pelas capacidades atuais de destruir e construir por cima da crosta terrestre - que afirmam que a superação do verde das florestas pelo cinza cimentado são uma prova do poder da humanidade sobre o mundo não-humano, como se essa capacidade destrutiva fosse acompanhada de alguma consciência de si. Na verdade, a humanidade se encontra hoje como um sonâmbulo que mesmo podendo se destruir ou destruir o meio ao seu redor, não o faz por vontade própria.

Qual é a saída para a espécie humana, na medida em que não tem completo poder de decisão sobre seu presente e futuro, e na medida em que também não pode ser completamente isenta do que vai acontecer enquanto espera um deus ex machina para sua salvação? Apenas a ruptura material com as abstrações que a acorrentam no samsara da lei do valor, única medida que pode fazer o sonâmbulo despertar e um agente da ação entrar em cena.


A Sociosfera

A Sociosfera

Por Phil A. Neel

Lendo Hellworld #1

Nesse conjunto de textos, eu reviso e expando vários temas surgidos em meu livro “Hellworld”, usando da oportunidade para elaborar melhor alguns pontos chaves, situando-os nas literaturas mais amplas, ou explicando o processo através do qual ele se desenvolveu. Como sempre, o material publicado aqui é bruto e de forma livre, seguindo meu estilo de escrita em semi-fluxo-de-consciência. Em vez de peças polidas, esses registros são melhor entendidos enquanto notas em um blog, cheias de erros e tangências na escrita, frequentemente incluindo visuais que se relacionam ao conteúdo central de modo apenas incidental.

A publicação anterior introduziu o conceito de “tecnosfera”, discutido em maiores detalhes no segundo capítulo de Hellworld, “Crust of the Earth” (“Crosta terrestre”). O termo aparece primeiramente com o geólogo Peter Haff, que argumenta que “um processo geológico emergente incorporou os seres humanos enquanto componentes essenciais para a manutenção de suas dinâmicas…” [1] Ao contrário da narrativa do “Antropoceno” - popularizada nos mesmos anos -, a “humanidade” aqui não constitui por si mesma esse “processo geológico emergente” na perspectiva de Haff. Na verdade, a humanidade é um agente de ordem inferior, “incorporado” na ordem superior - a lógica emergente da tecnologia - que vem a se constituir enquanto um sistema geosférico. Haff define a tecnosfera como:

O conjunto de tecnologias em redes de larga escala que fundamenta e torna possível: a extração rápida de grandes quantidades de energia e a subsequente geração de energia elétrica; a comunicação quase instantânea a longas distâncias; transporte rápido de energia e matéria a longas distâncias; a existência e operação de governos modernos e outras burocracias, operações de manufaturas e indústrias de alta-intensidade que incluem a distribuição regional, continental e global de comida e outros bens, e uma miríade adicional de processos ‘artificiais’ ou ‘não-naturais’ sem os quais a civilização moderna e seus 7x10^9 constituintes humanos não poderiam existir. [2]

Grande parte do capítulo de Hellworld se dedica a desvendar criticamente a ideia de tecnosfera. O núcleo dessa crítica é basicamente que Haff faz uso de uma teoria da tecnologia quase inteiramente associal, na qual uma lógica praticamente mecânica (na verdade, basicamente a segunda lei da termodinâmica) comanda estruturas sociais e, através delas, o movimento de matérias através do planeta.

Como no post anterior, a teoria da técnica de Lewis Mumford (particularmente como foi utilizada por Jason Moore) é contraposta à perspectiva de Haff. Enquanto essa teoria vincula melhor os aspectos sociais aos técnicos, ela ainda tende a dar muito crédito para os segundos. Esses problemas são visíveis na noção de instituições sociais de Mumford enquanto “megamáquinas”, tendência que provavelmente tornou leitores subsequentes predispostos a um reducionismo técnico centrado na divisão de mundo de Mumford em “eras” técnicas distintas (eotécnica, paleotécnica, neotécnica, etc.) que são definidas por conjuntos de tecnologias essenciais. Ao mesmo tempo, apesar de seu entendimento mais rudimentar de tecnologia, a perspectiva de Haff oferece uma descrição muito melhor de como uma lógica inesperada pode emergir em escala planetária a partir de formas de agência nas ordens inferiores que são sistematicamente fincadas em seus imperativos. Nesse sentido, a teoria da tecnosfera é mais marxista (ao menos em sua estrutura conceitual) do que a teoria da técnica de Mumford.

Emprestando uma citação de Martín Arboleda, o capítulo passa a argumentar que a “tecnosfera” de Haff não é em si mesma um sistema geosférico e sim o “exoesqueleto técnico” da sociedade capitalista. Em outras palavras, a tecnosfera é basicamente a aparência alienada de uma “sociosfera” primordial, na qual dinâmicas sociais prevalecem sobre aquelas que são puramente técnicas. Apesar de que o capitalismo é a primeira sociedade realmente planetária nesse sentido, ele não é a única sociedade possível. Essa noção, assim como o título do capítulo “Crosta terrestre” e a ideia de um “espaço cadastral” explicado na publicação anterior, são todos tirados de um artigo escrito por Amadeo Bordiga (co-fundador do Partido Comunista Italiano) intitulado “A espécie humana e a crosta terrestre”.

Como explico nas páginas de Hellworld:

Na forma de uma exposição sobre teoria marxista da renda da terra publicada nos anos 50, Bordiga argumentou que o assentamento humano sob o capitalismo toma uma forma cadastral - um mapa cortado em cadastros de lotes, atribuindo um dono a quem se deve arrendamento para cada centímetro de terra - que se estende não apenas em direitos intercambiáveis sobre a superfície do planeta mas também inaugura uma nova fase histórica “na disposição das instalações humanas sobre a crosta terrestre, em outras palavras, sobre uma camada que se estende acima e abaixo da superfície do solo”. Essa camada é planetária, seus nódulos dinâmicos são as aglomerações de habitação humana e atividade indústrial visível em centros urbanos. Mas, para Bordiga, isso não é exatamente uma “tecnosfera”, porque a tecnologia é um apêndice de sua formação, um efeito secundário. O caráter dessa esfera é na verdade historicamente maleável, se transformando junto das revoluções na organização social humana. Ele é, em outras palavras, melhor descrito enquanto um tipo de “sociosfera”, - um sistema geosférico emergente definido pelo metabolismo social agregado das espécies humanas com o mundo não-humano. [3]

Como essa seção deixa claro, o que parece ser um movimento meramente mecânico da matéria ao longo da malha global de sistemas técnicos é, na verdade, a dinâmica material de um metabolismo social com abrangência planetária. Novamente, podemos ver essas estruturas sócio-metabólicas encravadas na crosta terrestre em uma imagem de satélite:

imagem de satélite da região de Três Lagoas no Mato Grosso do Sul

Essa é uma imagem em cores reais da região de Três Lagoas no Mato Grosso do Sul, Brasil, na confluência entre os rios Sucuriú e Paraná. O Mato Grosso do Sul é um estado majoritariamente agricultor e um dos maiores produtores de soja do país. A região também é um dos maiores produtores de gado e a própria região de Três Lagoas funciona como um centro de embalagem de carnes e transporte de gado. Aqui, vemos essas especialidades econômicas marcadas no solo, visíveis como uma grade de monocultoras modeladas e diretamente ligadas às cadeias globais de valor. Mais especificamente, podemos pensar nessa área enquanto um território operacional especializado no que Swarnabh Ghosh, Neil Brenner e Nikos Katsikis cunharam de “Matriz Global de Lotes de Alimentação” (em inglês, “GIFM”). A natureza extrovertida do desenvolvimento geográfico da região é visível com apenas a imagem satélite. No entanto, sua escala não é necessariamente perceptível: se fosse um país, o Mato Grosso do Sul seria o quinto maior produtor de sementes oleaginosas do mundo. Como resultado disso, o território só pode ser entendido através de suas conexões com as supply chains agroindustriais globais, com demandas de fabricantes de produtos alimentícios na China, por exemplo, modelando diretamente o espaço agrário de uma parte relativamente pobre do sudoeste brasileiro.

Esse processo no qual territórios distantes modelam mutuamente uns aos outros através da interdependência social de abstrações econômicas é um conceito fundamental do GIFM. Em geral, Ghosh, Brenner e Katsikis descrevem a GIFM enquanto “um circuito metabólico de abrangência planetária abastecido por combustível fóssil, pela intensificação do uso de terras insaciável, por investimentos colossais em infraestrutura e uma destruição ambiental desenfreada”. [4] Os lotes agrícolas visíveis em Três Lagoas podem portanto ser entendidos enquanto uma dimensão geográfica de “paisagens operacionais multiescalares que sustentam esse circuito de capital, sobre as quais suas contradições socioambientais são projetadas”. [5] Além disso, a GIFM é um conceito expansivo que inclui não apenas as paisagens físicas da produção agrícola mas também “[as] relações de trabalho, sistemas de renda da terra, infraestruturas industriais, transmissores de energia de origem fóssil, malhas logísticas, colunas de emissões de carbono, assim como emaranhados de trabalhadores-consumidores humanos, produtos de origem animal e patógenos, mediados tecnocientificamente [technoscientifically]” [6]. Ela pode ser entendida portanto enquanto um tipo de dimensão agroindustrial do metabolismo social através do qual a sociosfera está interligada com sistemas biosféricos e, em certa medida, com sistemas litosféricos, hidrosféricos e atmosféricos.

Como indica a inclusão de “relações de trabalho”, os processos metabólicos ainda assim são a raiz material do poder de classe. Em termos mais gerais, podemos dizer que a dominação social enquanto tal sempre emerge e é estruturada a partir de formas diferenciais de engajamentos com a interface metabólica, assim como o controle sobre ela. Mais especificamente: a classe emerge no espaço de possibilidade que existe devido à dependência humana em ferramentas para preencher a lacuna metabólica. Como é explicado por Søren Mau: “humanos são obrigados a mediar seu metabolismo através de ferramentas, mas não existe uma maneira obrigatória de organizar essa mediação… A organização corpórea humana abre um imenso espaço de possibilidade fundamentado na necessidade: um metabolismo deve ser estabelecido, mas sua forma social não é algo simplesmente dado.” [7] Desde as mais antigas eras da história humana, esse espaço é então marcado pela luta política: “o fato de que partes do corpo humano podem ser concentradas enquanto propriedade nas mãos de outros membros da espécie traz a consequência de que o poder pode costurar a si mesmo no próprio tecido do metabolismo humano.” [8]

Para Mau, essa possibilidade só é explorada por completo no capitalismo, em que a subsunção do processo produtivo é capaz de reestruturar ambos os lados da interface metabólica. Jason Moore descreve então a história do desenvolvimento capitalista enquanto progresso através de uma série de “revoluções ecológicas mundiais”, nas quais “novas naturezas” são “co-produzidas pela biosfera e o capitalismo” através de “inovações do capital, da ciência e do império…” Através de sua combinação única de dinâmicas sociais, técnicas e ecológicas, cada “grande onda” de acumulação “cria - e é criada por - uma natureza histórica que oferece um novo e específico conjunto de limites e oportunidades.” [9] Baseando-se na teoria dos sistemas-mundo, Moore é capaz de rastrear essas transformações retroativamente ao início da história do capitalismo e, além disso, ilustrando o impacto social transformador do desflorestamento na Amazônia e na Bacia do Vístula na Europa, da mineração e da revolução metalúrgica na Europa Central, da revolução agrícola na região costeira da Carolina do Sul, e das fronteiras da produção de açúcar que se expandem de Madeira a São Tomé no Brasil, tudo desde pelo menos o século XV em diante. Em cada caso, Moore ressalta como as crises ambientais da Idade Média Tardia foram induzidas por - e ajudaram a criar - novas interfaces técnicas com o mundo não-humano que então produziu novas naturezas históricas e como formas sociais capitalistas nitidamente tomaram forma nesse processo.

Morte e o Lenhador

“Morte e o Lenhador” por Gustave Doré

Esse é um contraponto importante a Mau, cujo método retórico algumas vezes parece sugerir que a dominação social não estava tão completamente entrelaçada na lacuna metabólica dos modos de produção anteriores. Por exemplo, Mau aponta que o capitalismo tem como pressuposto o alargamento da separação entre os produtores e os meios de produção e, como resultado, retrata os pressupostos dos modos de produção pré-capitalistas como uma mera “conexão íntima e permanente entre o produtor […] e os meios de produção”. [10] Em outro momento, ele diz que, ao transpor o poder social para o ambiente material (um procedimento que segue dessa separação), a violência direta se torna menos necessária no gerenciamento cotidiano da produção no capitalismo. Isso é novamente contraposto aos modos de produção anteriores, onde a coerção direta era um elemento constitutivo da estrutura de classes. Na verdade, o contraste evocado por Mau sugere frequentemente uma diferença muito forte, como quando ele contrapõe o costurar do poder no tecido do metabolismo social com a forma de poder pré capitalista que “se [anexa] externamente ao metabolismo e bombeia violentamente o mais-trabalho como se fosse uma sanguessuga…” [11]

O próprio Mau não está realmente dizendo que era dessa maneira que os modos de produção anteriores funcionavam (em outro momento, ele oferece uma visão mais nuançada sobre isso). Mas a sugestão parece natural porque tais explicações de características únicas da sociedade capitalista se apoiam tão frequentemente num contraste retórico em que as formas aparecem em proporções exageradas: enquanto formas de dominação extrínsecas, nas quais a dominação se realizava através da violência direta, em que a inovação era suprimida, em que as trocas e os câmbios monetários eram extremamente limitados, etc,. Portanto, apesar de que a emergência histórica da sociosfera só pode ser entendida através da elaboração teórica das leis abstratas do movimento da sociedade capitalista - distintas em qualidade daquelas que governaram as formas pré-capitalistas do metabolismo social -, esse processo também precisa ser inserido em uma história maior de dominação social como tal, na qual o poder sempre foi empregado em e através de uma transformação social de ambos os lados “social” e “ambiental” da interface metabólica. Em outras palavras, a xenoformação [xenoformation] capitalista da crosta da Terra sob fluxos materializados de valor é em si mesma uma expressão em metástase do impulso “civilizacional” mais profundo que emana da sociedade de classes enquanto tal.

Em um nível muito elevado, podemos entender a distinção da seguinte forma: a inauguração de um único e unificado sistema sociosférico foi constituída através das leis singulares de movimento da sociedade capitalista. Apesar de que isso não é uma necessidade lógica, é no entanto um fato histórico evidente, identificável em todas as medidas evocadas por Haff e detalhadas em “Crosta da terra”, incluindo: a evidente transformação da atmosfera e as catástrofes ambientais que se seguiram, o fato de que a soma de material abiótico antrópico (por exemplo: concreto, asfalto e material residual) agora é maior (em termos de massa) do que toda a biosfera, e a maneira igualmente marcante com a qual fluxos fundamentais de matérias foram acelerados através da intervenção humana (como na superação da desnudação natural pelo movimento de massas antrópicas). Em um nível mais ordinário, a existência do sistema sociosférico é confirmada na medida em que a economia global funciona enquanto uma força interveniente que amarra nossas próprias vidas a esses imperativos abstratos, de modo que a subsistência cotidiana em algum lugar pode ser interrompida por uma grande crise estourando no outro lado do globo. Como a controvérsia sobre as tarifas americanas recentes demonstrou, nós nos encontramos suspensos em uma malha complexa de relações sociais com pessoas ao redor do planeta, quer gostemos ou não.

Mapeamento de massa antrópica em relação a biomassa

Texto na imagem original traduzido: Estimativas de biomassa (seca e úmida), massa antropogênica e resíduos antropogênicos desde o início do século XX. As linhas verdes mostram o peso total da biomassa (±1 desvio padrão). O peso da massa antropogênica é representado em um gráfico de área. A estimativa do peso úmido baseia-se nos resultados apresentados na Figura 1 e no respectivo teor de água dos principais componentes (ver Métodos). O ano de 2013±5 marca o momento em que a biomassa seca é superada pela massa antropogênica, incluindo resíduos. Os anos de 2037±10 e 2031±9 marcam os momentos em que a biomassa úmida é superada pela massa antropogênica e pela massa antropogênica total produzida, respectivamente. As incertezas dos anos de interseção foram derivadas usando uma simulação de Monte Carlo, com 10.000 repetições (ver Métodos). Os pesos são extrapolados para os anos de 2015 a 2037 (área mais clara; ver Métodos)

Figura 2: Mapeamento de massa antrópica em relação a biomassa por Elhachem et. al. 2020

Demonstração do aumento na frequência de deslizamentos ao longo do tempo

Figura 3: Demonstração do aumento na frequência de deslizamentos ao longo do tempo. de Cendrero et. al. 2022

Demonstração do aumento na frequência de desastres

Figura 4: Demonstração do aumento na frequência de desastres hidrogeomorfológicos em comparação com desastres “puramente climáticos” ao longo do tempo, por Cendrero et. al. 2022

É claro, essa não é a única sociosfera possível. No começo do século 20, o geoquímico soviético Vladimir Vernadsky - um dos primeiros cientistas a reconhecer que o oxigênio, nitrogênio e o dióxido de carbono atmosféricos derivam da biosfera - alegou que a vitória da revolução socialista ao redor do mundo iria elevar a razão humana a uma força geosférica. O avanço dos princípios científicos e ecológicos permitidos por esse processo revolucionário iriam permitir por fim o remodelamento social e físico do planeta, resultando em uma “nova condição evolucionária da biosfera” na qual “a ação racional humana se torna fator decisivo para o desenvolvimento da biosfera.” [12] O trabalho mais convencional de Vernadsky influenciaria mais tarde a ciência ambiental preliminar, incluindo a noção moderna de biosfera. E, apesar de que a noção de noosfera foi subsequentemente apropriada por pensadores do movimento New Age, e então mais obscurecida nas teorias que equiparavam a emergência da internet com o surgimento de uma consciência coletiva, o próprio Vernadsky a entendia em termos bastante científicos:

Vernadsky entendeu a noosfera enquanto uma fase legítima da evolução da biosfera. A característica crucial do último estágio da evolução biosférica entendida por ele é a dominância da razão científica. A ciência influencia, acelera, transforma e coloca sob seu controle processos biosféricos “naturais”. Ao mesmo tempo, a ciência é também um fenômeno planetário. [13]

Mais especificamente para Vernadsky, “a noosfera emerge no ponto em que a humanidade, através dos processos nucleares, passa a criar recursos energéticos através da transmutação nuclear de elementos”. [14]

Tal maestria, no entanto, não era garantida, mas sim contingente ao sucesso do processo revolucionário de transformação social. E não é preciso dizer que, no fim, o projeto sovíetico falhou em induzir a onda revolucionária global necessária para esse sistema qualitativamente mais avançado ser formado. Em vez disso, através da derrota do movimento comunista global, foi a pulsão inerentemente global da acumulação capitalista que acabou unindo as espécies em uma só “comunidade material” (usando a linguagem de Jacques Camatte). Qualquer sistema noosférico futuro vai, portanto, ser o resultado de uma transformação revolucionária que ocorra na sociosfera já existente, e não dos meios através dos quais processos metabólicos dispersos são unidos pela primeira vez em um sistema planetário. Mas isso também impõe uma pergunta mais interessante no sentido oposto: dada a já argumentada influência da humanidade na biosfera, influência que precede o capitalismo, podemos dizer que algo como um sistema sociosférico já existia no passado?

Essa pergunta é mais difícil de responder, por exigir uma exploração mais extensa da história ambiental. Em um post futuro, vou explorar alguns pensamentos sobre modos de produção e debates teóricos sobre a natureza do materialismo histórico. Por agora, podemos propor a ideia de que as formas iniciais de organizar o metabolismo social eram relativamente localizadas e, ao longo do tempo, apresentaram um processo gradual - ainda que irregular - de integração global por meio das mecânicas descritas pelos teóricos dos sistemas-mundo: trocas a longas distâncias de materiais essenciais entre centros populacionais materialmente “pesados” que formavam conexões materialmente “leves” entre eles, criando formas de facto interdependentes entre formas outrora distintas de assembleias sóciometabólicas. Tenha o processo alguma necessidade teleológica ou não, o padrão histórico observado é de que revoluções sociais e técnicas interligadas entre si tenderam, ao longo do tempo, a aumentar essa integração. No entanto, até o capitalismo emergir, isso era no máximo um mosaico proto-sociosférico de metabolismos. Além de demonstrar um maior grau quantitativo de integração material, uma maior escala de movimento de massas, a sociedade capitalista é portanto qualitativamente diferente na medida em que se constitui enquanto a primeira organização realmente planetária do metabolismo humano com o mundo não-humano nessa escala sociosférica, dentro da qual as mesmas formas sociais fundamentais prevalecem em qualquer lugar.


[1] “Technology as a geological phenomenon: Implications for human well-being” [Tecnologia enquanto fenômeno geológico: implicações para o bem-estar humano] por Peter Haff. p.302. (Tradução não encontrada)

[2] Ibid, p.301-302

[3] Hellworld, p. 112 (Sem tradução para o português até o momento)

[4] “The Global Industrial Feedlot Matrix: A Metabolic Monstrosity” [Matriz Global de Lotes de Alimentação:uma monstruosidade metabólica] por Swarnabh Ghosh, Neil Brenner e Nikos Katsikis. p.134

[5] ibid

[6] ibid

[7] “Mute Compulsion: A Marxist Theory of the Economic Power of Capital” [Compulsão mútua: Uma teoria marxista do poder econômico do capital] por Søren Mau. p.101 (Não foi encontrada tradução)

[8]ibid, p.115

[9] “Capitalism in the Web of Life: Ecology and the Accumulation of Capital” [Capitalismo na teia da vida: ecologia e a acumulação do capital] por Jason Moore. p.150-151 (Não foi encontrada tradução)

[10] Søren Mau. 2023. p. 140

[11] ibid, p.115

[12] “Vladimir Vernadsky: cosmos, Earth, life, man, reason—from biosphere to noosphere.” [Vladimir Vernadsky: Cosmos, terra, vida, homem, razão - da biosfera à noosfera] por Inar I. Mochalov. p. 384-434.

[13] “Biogeochemistry – Biosphere – Noosphere: The Growth of the Theoretical System of Vladimir Ivanovich Vernadsky” [Biogeoquímica - Biosfera - Noosfera: o crescimento do sistema teórico de Vladimir Ivanovich Vernadsky] por George Levit. p. 84

[14] “Vladimir Ivanovich Vernadsky (1863–1945) — From mineral to noosphere” [Vladimir Ivanovich Vernadsky (1863-1945) - do mineral à biosfera] por Heinz Kautzleben e Axel Müller. pp.4-10